O diálogo registrado no capítulo 8, do livro "Memórias do Cárcere" fala da chegada de Graciliano Ramos na Vila do Abraão em barco vindo de Mangaratiba:
"Como se chama este povoado? ABRÃO. (...)
Topônimo esquisito: ABRAÃO. Um dos condutores me corrigiu a pronúncia:
ABRÃO.
Certamente havia morado ali um sujeito importante com esse nome. Algum judeu? (...) E o Abrão continuava na geografia miúda, possivelmente um velho Abrão de olhos vivos e nariz curvo, parente vago de Gikovate e Karacik, transferidos um mês atrás para a sala da Capela.”
Curiosamente, Graciliano Ramos, mesmo depois de ter sido corrigido pelo condutor, sabia que Abrão também era nome próprio de uma pessoa, quando diz: “velho Abrão de olhos vivos e nariz curvo”.
Diferentemente de uma abra, que é um ponto geográfico numa costa, e não, uma pessoa.
Mas o que poucos sabem, e é engraçado, que embora se declarasse ateu, o escritor Graciliano Ramos, tinha como leitura predileta a Bíblia. Portanto, esse detalhe, pode explicar porque o nome do patriarca já se encontrava subconsciente na memória intelectual e cultural do escritor.
A polêmica continua com o próprio José Carlos fazendo alguns questionamentos.
Quem batizou a enseada e a vila com o nome de Abraão da bíblia?
E a razão do nome bíblico?
Quem foi batizado primeiro, a enseada ou a vila?
E o nome completo e original da época?
Qual documento oferece respaldo?
Tentando solucionar as questões José Carlos cita documentos da época de D. Pedro.
As transcrições são alguns registros contidos no relatório apresentado pelo Dr. Nuno Ferreira, Inspetor Geral de Saúde dos Portos, ao então Sr. Conselheiro Fillipe Franco de Sá, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império.
Com destaque especial para o datado de 11 de agosto de 1884. A linguagem e a ortografia utilizada é própria da época.
Vamos aos registros documentados e, no original:
“Segui para a ilha Grande, cujas enseadas do lado norte são tão encarecidas pelos navegantes e onde, em 1856, não só uma fragata ingleza, como varios vapores procedentes das provincias do norte fizeram quarentena e foram desinfectados.
Uma dessas enseadas, que pelo abrigo que offerece ás embarcações mereceu ser denominada – Seio de Abrahão – era o ponto predilecto dos que indicavam a ilha; mas esqueciam-se estes de que podem competir com a referida enseada duas outras: a de Palmas e a do Céo.” - 11 de agosto de 1884. Andrade, Nuno.
“A enseada de Abrahão chegou a conter fundeados á espera de vento para seguirem viagem, dezenas de embarcações; hoje não se encontra, senão raramente, uma ou outra.” - Freitas, 1884, 06 setembro.
“Todavia, não basta indicar a enseada de Abrahão, onde devem fundear os navios simplesmente suspeitos, mas onde não podem permanecer os que estiverem infectados.” - 11 de agôsto de 1884 – Dr. Nuno de Andrade.
“ Reservar-se a enseada de Abrahão para expediente do lazareto e fundeadouro dos navios suspeitos”.